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Silepse

O Diário - 9 de agosto de 2026

Silepse

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

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Figura sintática

Quem já se deparou com frases como “O Rio de Janeiro é famosa no mundo inteiro“ ou “Vossa Excelência ficou cansado com o discurso” talvez nem perceba que nelas existe um fenômeno gramatical bastante particular. Em estruturas sintáticas como essas, a concordância deixa de seguir rigorosamente a forma das palavras e passa a acompanhar a ideia que elas representam. Assim, o emprego da silepse tanto demonstra que a concordância linguística pode ser orientada pelo sentido quanto revela a estreita relação entre gramática e contexto discursivo na construção do significado.

Em primeiro lugar, a silepse demonstra que a concordância linguística pode, sim, ser orientada pela semântica, e não apenas pela morfossintaxe. Nos exemplos “O Rio de Janeiro é famosa no mundo inteiro” e em “O bando de moleques brincava com pipa. Nem ouviam nem buzina e nem o chamado da mãe”, a concordância ocorre com a ideia de cidade e de pluralidade, e não com a forma gramatical expressa. Tal mecanismo evidencia que a língua, em determinadas circunstâncias, privilegia a representação mental dos referentes em vez da estrutura formal das palavras.

Como o valor expressivo da silepse tem sido atenuado, algumas de suas ocorrências podem ser interpretadas como erro por leitores não familiarizados com esse mecanismo de concordância. Logo, o que se observa, em textos contemporâneos de caráter técnico, acadêmico ou administrativo, é a preferência pela concordância formal. De todo modo, a silepse ainda permanece na literatura como valiosa janela para a compreensão de que a gramática acompanha os caminhos do pensamento humano. Aliás, há momentos em que o povo, atento às ideias que expressa, deixam a forma em segundo plano.

Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie