Tecnofeudalismo e o sequestro da liberdade
O Diário - 13 de julho de 2026
*Padre Marcio Tadeu Reiberti Alves de Camargo – Sacerdote na Diocese de Votuporanga(SP), Pároco, Professor, Pós-graduado em Bioética pela Cátedra da UNESCO e Apresentador na Rede Vida.
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Padre Marcio Tadeu
O economista grego Yanis Varoufakis, em 2015, diante da crise grega, sentou-se à mesa de negociações com os credores da União Europeia e disse não. O Ministro das Finanças da Grécia não durou muito à frente da pasta, mas marcou seu nome para a história do debate contemporâneo sobre economia política. Anos depois, ele voltou com uma tese que incomoda todas as matrizes ideológicas tradicionais. O capitalismo tal como Adam Smith, Marx, Weber e outros economistas clássicos descreveram não existe mais. Não foi derrubado por revolução nenhuma. Foi corroído por dentro, pela própria tecnologia que ele mesmo fomentou. No lugar dele, segundo Varoufakis, ergueu-se algo que só encontra nome adequado no passado: “tecnofeudalismo”, assim ele batizou sua teoria.
Um outro pensador, Shoshana Zuboff, já vinha descrevendo uma tese próxima, mas com nome diferente. O “capitalismo de vigilância” é uma teoria de que nossos dados comportamentais viraram matéria-prima extraída sem consentimento real pelas plataformas digitais. Mas, há também quem discorde de Varoufakis. Um deles é o pesquisador Evgeny Morozov que vê nas big techs não extratoras de renda no sentido feudal, mas capitalistas que seguem investindo pesado em inovação e infraestrutura, o que para ele é assinatura do capitalismo, não sinal de que acabou ou tenda para o fim. Cito essa divergência pois não estou aqui para vender uma tese como se fosse dogma.
Assim, podemos definir que há um diagnóstico comum entre praticamente todos esses autores, concordando ou não sobre a tese do fenômeno: a liberdade do indivíduo diante das plataformas digitais encolheu de um jeito que a maioria das pessoas nem percebeu. Para Varoufakis, o usuário comum acaba funcionando como uma espécie de servo, produzindo dividendos sem controle real sobre os próprios dados, enquanto o algoritmo decide o que ele vê, compra e, gostemos ou não da palavra, acredita. Segundo suas palavras, as plataformas não precisam de oficial de justiça para confiscar nada, basta cortar o acesso e a pessoa desaparece do mundo econômico como se nunca tivesse existido ali.
Isso já não é mais discussão de economistas, mas, sim, uma pergunta sobre o que resta da pessoa humana quando sua liberdade de escolha é treinada antes de ela sequer aprenda o que é escolher. E aqui, como sacerdote e como quem já perdeu dias discutindo casos clínicos com médicos e pesquisadores sobre autonomia do paciente, entendo que a questão deixa de ser só econômica e vira antropológica. Que espécie de liberdade sobra num sistema desenhado para prever seu próximo clique antes de você mesmo saber qual será?
A Igreja não chegou atrasada a esse debate, na carta encíclica Magnifica Humanitas, publicada em maio deste ano, o Papa Leão XIV abre o texto com uma imagem que resume tudo: a humanidade diante da escolha entre repetir a lógica de Babel ou construir uma convivência onde Deus e a pessoa habitem juntos. Não é retórica vazia. É diagnóstico preciso do mesmo problema que Varoufakis descreve com outras palavras: poder concentrado sem responsabilidade, eficiência que vira fim em si mesma e esquece a dignidade da pessoa pelo caminho.
O Papa não trata a técnica como inimiga, pelo contrário, reconhece seus benefícios alertando que ela apenas imita algumas funções da inteligência humana, sem viver experiência, sem corpo, sem o peso moral de julgar o certo e o errado que só uma pessoa carrega. E quando fala de ordem social justa na era digital, é igualmente direto: o critério não pode ser somente o lucro, e sim a dignidade de cada pessoa e o bem-estar da humanidade. Não é por acaso que trate também desse colonialismo digital, ao lembrar da exploração de mão de obra e no uso injusto de dados, o mesmo fenômeno que os economistas chamam de extração de renda, afinal, dados são inquestionavelmente o bem mais precioso nesse tempo.
Aprofundando a Magnifica Humanitas, identificamos que o Papa deixa claro que a dignidade da pessoa não é algo que se conquista ou se prova por desempenho, é dom anterior a qualquer produtividade, anterior a qualquer dado que um algoritmo consiga extrair de nós. Isso é o oposto exato da lógica das plataformas, que só reconhecem valor no que pode ser medido, monetizado e comercializado. Um capitalismo que respeite a identidade humana, se é que ainda cabe usar essa palavra, precisa devolver ao trabalho aquilo que nenhuma métrica de engajamento consegue substituir: a capacidade de amar e se relacionar com o Outro(Deus), com o outro(pessoa) e com a natureza.
Concluo seguindo o caminho indicado pela encíclica, não como encerramento definitivo do argumento, mas como um convite. O Papa nos chama a construir o bem e a permanecer profundamente humanos diante dessa transformação. Se o tecnofeudalismo é, de fato, a nova face do poder, como afirma Varoufakis, ou apenas uma metáfora contundente para um capitalismo mais agressivo, como prefere Morozov, uma certeza permanece: a dignidade e a liberdade humanas não podem ser tratadas como sobras do sistema. Elas são fundamentos da fé cristã e da Ética, que, por caminhos divinos e humanos, conduzem ao mesmo ponto: o valor inalienável de cada pessoa na Terra.