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Tempero brasileiro em 1935

O Diário - 24 de fevereiro de 2026

Tempero brasileiro em 1935

KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e ocupante da cadeira 7 da ABC / @profkarlaarmani 

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Quando escrevi meu livro “De onde cantam as cigarras”, sobre a origem do Grêmio Literário e Recreativo, lembro-me que um dos períodos mais empolgantes que retratei foi a década de 1930. Enxerguei nela a transição entre uma tradição que não queria se desfazer e uma modernidade que ganhava espaço. Não era uma rivalidade de mentalidades, e sim um ajustamento do tempo. Fosse na música, na poesia ou na dança, havia uma liga entre o erudito e o popular, o estrangeiro e o nacional, o clássico e o novo. 

Fortemente, percebi essa mescla de ideias, sons, letras e movimentos no ano de 1935. Nele, tornou-se presidente do Grêmio o jovem químico Nicácio Serafim Barcellos, figura que criou nas programações do clube a “Hora Musical” e a “Hora Literária”. Na prática, eram conferências, saraus, concertos e apresentações artísticas, organizadas uma vez por mês por uma comissão de quatro moças e um rapaz. Graças a uma pesquisa profunda, pude citar no livro exemplos das músicas, danças, concertos e conferências apresentadas. Dentre os artistas participantes desses saraus, a pianista barretense Haydée Menezes foi das mais atuantes e exemplo clássico da mistura do tradicional e moderno daquele tempo. Certa vez, levou ao velho piano do Grêmio a valsa alemã de Moszkowsky, seguida da “Dança dos Negros”, do mineiro Fructuoso Vianna.

O contraponto mais interessante que enxerguei foram as edições do fim do ano. Em novembro, a Festa da Saudade exibiu a quadrilha francesa “Les Lillas”, onde oito pares, trajados a caráter da época da imperatriz Eugênia e de Napoleão III, de 1860, dançaram vivamente em um cenário que parecia exibir as marquesas e fidalgos da corte francesa. Os salões do Grêmio pareciam verdadeiras obras de arte. No mês seguinte, porém, a Hora Literária se dedicou ao cenário brasileiro, especialmente o sertanejo, com a canção regionalista “Luar do Sertão” cantada por moças e rapazes vestidos de roceiros.

É, portanto, igualmente rico e fascinante esse período cultural da cidade, vivido pelo Grêmio. O clássico insistia em permanecer, mas precisou dividir os aplausos com o modernismo e a brasilidade dos novos tempos. Os anos 1930 trouxeram tempero brasileiro para um palco que parecia ser estrangeiro. Só parecia.