Uma imagem e o diálogo como herança
O Diário - 21 de janeiro de 2026
Uma imagem e o diálogo como herança
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Na última sexta-feira, a caminho de uma reunião em São José do Rio Preto, recebi uma mensagem no celular do amigo Jairinho, da Puppy Som.
Ele escreveu: “Podendo falar?”
Embora eu não estivesse dirigindo, o sinal estava fraco e caindo. Em seguida, ele começou a enviar fotos antigas às quais teve acesso para um trabalho de memória do CPP. Entre elas, imagens do meu amado pai.
As fotos mexeram profundamente com a minha emoção.
Especialmente uma.
Nela aparecem meu irmão Luís Antônio, Salim Abdala Thomé, Solom Borges dos Reis, meu tio — o deputado Sebastião Monteiro — com as mãos sobre meus ombros, o deputado estadual Nadir Kenan, Nhozinho, prefeito de Barretos pelo MDB, e o tio Joel Waldo Dal Moro.
Muitos pensamentos passaram pelo meu coração e pela minha mente.
Desde criança, meu pai levava a mim e ao Totonho para acompanhá-lo em seus trabalhos. Participamos de vários eventos importantes em que ele atuava como repórter. Assim, fomos testemunhas da relevância do seu trabalho e do orgulho que sentia por ter os filhos por perto. Ele nos inspirava, nos valorizava e nos ensinava pelo exemplo.
Naquela foto, aparecem autoridades de diferentes posicionamentos políticos. Era o tempo da ARENA e do MDB. Vivíamos o período de exceção.
Ainda assim, o que mais me marcou foi algo que hoje parece tão raro: o diálogo e a amizade.
Meu tio Sebastião, deputado federal pela ARENA, era um grande conciliador. Nadir Kenan, eloquente, gostava da conversa, do encontro, do entendimento. Comunicador por excelência, foi gerente da Rádio Piratininga e escolheu meu pai para substituí-lo quando se tornou deputado estadual.
O prefeito Cristiano de Carvalho, do MDB, era firme e enfrentou muitos embates políticos, mas sem abrir mão do respeito.
Essa imagem despertou em mim uma reflexão inevitável.
Em que momento perdemos a capacidade de dialogar?
De tentar compreender o outro?
De respeitar posições diferentes?
Como ser intransigente nas questões de honestidade e respeito à coisa pública e, ao mesmo tempo, aberto ao diálogo e ao entendimento — sem ódio apenas porque o outro pensa diferente de mim?
Percebo, ao olhar para essa foto, que muito do que sou é fruto do amor que recebi do meu pai, dos meus tios e dos amigos dele. O diálogo, o respeito e a convivência entre diferentes foram a herança que recebi.
Hoje, naquela imagem, apenas três permanecem vivos, pela graça de Deus: papai, Totonho e eu.
Cultivo uma rotina diária de ir à missa e, em minhas intenções, sempre coloco as almas dos meus avós, tios, tias e amigos que já partiram — como Joel, Marcão, Zé Vicente, Rosca, Lelo, Doma, Carlos Costa, José Carlos Lima… e tantos outros.
O tempo passa. Muitas pessoas estão indo para a casa do Pai.
Enquanto ainda estou aqui, sigo cultivando a gratidão e o desejo sincero de retribuir tanta amizade e tanto amor.
Deus é muito generoso comigo.
Como corresponder?
A cada dia, uma oportunidade.
Pena que, às vezes, eu a deixe escapar. Mas continuo tentando. É humano.
Divino mesmo é a misericórdia de Deus.

João Monteiro de Barros Neto




