Voto distrital: a hora é chegada
O Diário - 15 de outubro de 2026
Sebastião Misiara é presidente do Conselho Gestor da UVESP
Compartilhar
A eleição de 2026 deixou uma reflexão que não pode ser ignorada por quem acredita no municipalismo e na força dos municípios como entes da Federação.
Ao analisar a distribuição das vagas para deputado federal em São Paulo, Duarte Nogueira, ex-prefeito de Ribeirão Preto, chamou a atenção para o contraste entre a representação da Grande São Paulo e aquela que resta às cidades do interior. Sua própria suplência, apesar dos votos recebidos, evidencia as dificuldades enfrentadas por candidaturas com raízes regionais em um sistema de representação proporcional.
Não se trata de diminuir a importância da capital ou da região metropolitana. Trata-se de reconhecer que São Paulo é muito maior do que seus grandes centros urbanos. O interior produz, trabalha, gera empregos, movimenta o agronegócio, desenvolve tecnologia, sustenta cadeias industriais e mantém viva uma diversidade econômica e cultural indispensável ao Estado.
Entretanto, quem representa essas comunidades quando as decisões sobre investimentos, infraestrutura, saúde, educação e desenvolvimento são tomadas em Brasília?
Há anos, Guilherme Afif Domingos, uma liderança indiscutível, defende o voto distrital como caminho para aproximar eleitores e representantes. Em sua proposta de voto distrital misto, parte das vagas seria preenchida por representantes eleitos em distritos, enquanto outra parte preservaria a representação proporcional dos partidos
Esse é o modelo alemão que dá certo. O objetivo é fortalecer os vínculos entre as comunidades e aqueles que falam em seu nome.
É uma discussão que o Brasil precisa enfrentar com seriedade. O atual sistema proporcional tem a função legítima de assegurar representação partidária, mas a experiência eleitoral também nos convida a refletir sobre o risco de determinadas regiões ficarem sem interlocução política suficientemente próxima de suas necessidades.
Para os municípios, essa questão é decisiva. Sem representantes comprometidos com as realidades locais, reivindicações importantes podem perder força, projetos podem demorar a avançar e oportunidades de desenvolvimento podem deixar de chegar a quem mais precisa delas.
O municipalismo não é uma bandeira partidária. É a defesa de um princípio federativo: o município precisa ter autonomia, recursos e voz que não se cala.
Não basta reconhecer sua importância na Constituição se, na prática, as decisões e os recursos permanecem excessivamente concentrados longe da população.
Por isso, a discussão do voto distrital deve mobilizar prefeitos, vereadores, entidades municipalistas e toda a sociedade. Não para criar antagonismos entre capital e interior, mas para construir uma representação mais próxima, responsável e equilibrada.
O interior não pede privilégios, pede respeito, presença e representação, uma causa para o municipalismo.
Sebastião Misiara é presidente do Conselho Gestor da UVESP