Esqueci minha senha
Vozes e cores da velha Barretos (parte II)

O Diário - 23 de setembro de 2025

Vozes e cores da velha Barretos (parte II)

KARLA ARMANI MEDEIROS, historiadora e ocupante da cadeira 7 da ABC. @profkarlaarmani 

Compartilhar


José Dias Leme era jornalista e autor de livros, peças teatrais, hinos e poesias, por isso, muito habilidoso com as palavras e discursos. Ao proferir aquela palestra em 1946 nos salões da União dos Empregados no Comércio, usando de bons adjetivos, ele presentou o futuro ao descrever e apresentar os personagens antigos de Barretos, que até então só conhecíamos por fotografias em preto e branco, com suas vozes, cores e jeitos.

Dias Leme viveu em Barretos entre 1915 e 1922, foi guarda-livros de casas bancárias. Sobre essa época, ele inicia a palestra com Silvestre de Lima, descrevendo-o como um “morenão de voz muscula” (imagino que o nosso poeta, certamente um afrodescendente, era dono de uma voz firme). Sobre Antonio Olympio, ele o classifica como um “moreno magro, de olhar penetrante e gestos delicados” (Olympio era conhecido por seu garbo e elegância, de fato). Raphael Brandão é descrito como “vagaroso e despreocupado, com o seu cabelo branco cortado a escovinha e bigode caído”. João Machado me surpreendeu, pois eu o imaginava bem alto, mas o escritor o define como “um homem gordo e baixo, com uma bengalinha e ar austero”. O “bigode de quase dobrar a esquina” de Elyseu Ferreira de Menezes não passa despercebido. Já Almeida Pinto é citado como “um velho alto, de voz embaçada e gestos nervosos, que fazia discursos a toda hora e curava pela homeopatia”. O “mulato de feições serenas que se preocupava com os enfermos, os infelizes e os dementes” era o dr. Mariano Dias (médico negro que foi o primeiro presidente do Grêmio). Chico Romano, o farmacêutico, é lembrado como “moço risonho e corado que atende a todo mundo”. Emílio José Pinto é o “moço de olhos brilhantes falando de arte e literatura”. 

Dias Leme não deixou passar as lembranças sobre os boiadeiros, invernistas, comerciantes, jornalistas e médicos, como o dr. Martins que visitava os doentes em um cabriolet (uma carruagem leve puxada por cavalos). Recordou-se das ruas sem calçamento, da poeira, dos casebres de tábua, dos concertos musicais na praça e as sessões de cinema, além dos tiroteios e crimes. E, assim, graças às palavras de Dias Leme foi possível colorir e ouvir mais sobre o passado da Barretos que não vivemos. [fim].