Zeugma
O Diário - 3 de maio de 2026
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Figura sintática
Em textos bem construídos, muitas vezes se percebe que certas palavras deixam de aparecer sem que isso comprometa a compreensão, como se a própria estrutura do enunciado indicasse o que falta. Esse recurso, conhecido como zeugma, consiste na omissão de um termo já expresso anteriormente, recuperável no contexto. Tal fenômeno, próprio do funcionamento da língua, evidencia tanto a capacidade de promover economia por retomada implícita quanto o papel da organização sintática na construção de um discurso mais fluido.
O zeugma promove economia linguística ao retomar implicitamente termos já expressos no enunciado. Em construções como “Uns defendem a inovação; outros, a tradição”, o verbo já mencionado é omitido, mas permanece claramente subentendido. Essa supressão evita repetições desnecessárias e mantém a clareza da mensagem, pois o leitor reconhece facilmente o elemento ausente. Aliás, a diferença entre as figuras zeugma e elipse recai sobre um critério sutil: no zeugma, o termo omitido já foi mencionado antes, enquanto, na elipse, pode ser inferido pelo contexto.
Outro aspecto relevante no zeugma está na organização do enunciado e na fluidez que ele imprime ao discurso. Em sequências como “Ele leu o relatório; ela, o resumo” ou “Uns defendem a mudança; outros, a permanência”, o paralelismo estrutural orienta a leitura e torna o raciocínio mais ágil. Esse arranjo sintático conduz o olhar do leitor com naturalidade, como um percurso já sinalizado. Desse modo, a linguagem confirma que, quando a estrutura orienta o sentido, dizer menos pode ser uma forma elegante de dizer melhor.
Luciano Borges é Doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie




